“Então Samuel pegou uma pedra e a pôs entre Mispa e Sem. E lhe deu o nome de Ebenézer, dizendo: — Até aqui nos ajudou o SENHOR.” (1Sm 7:12)
A passagem de 1 Samuel 7:12 é um dos marcos mais significativos do Antigo Testamento sobre a fidelidade de Deus. Para compreender sua profundidade, precisamos observar o cenário em que o povo de Israel se encontrava naquele momento.
O Contexto Histórico: Da Opressão à Vitória
Antes desse episódio, Israel vivia um período sombrio. Afastados de Deus e entregues à idolatria (adorando a Baal e Astarote), os israelitas estiveram sob o domínio opressor dos filisteus por 20 anos.
- Arrependimento e Reunião: Sob a liderança do profeta Samuel, o povo decidiu arrepender-se e abandonar os deuses falsos. Eles se reuniram em Mispa para jejuar e confessar seus pecados.
- O Ataque Inesperado: Ao ver o povo reunido, os filisteus decidiram atacar. Israel estava vulnerável e aterrorizado.
- A Intervenção Divina: Samuel clamou ao Senhor e ofereceu um sacrifício. A Bíblia relata que Deus “trovejou com grande estrondo” sobre os filisteus, confundindo-os e permitindo que Israel os derrotasse.
- O Memorial: Após a vitória, Samuel não tomou a glória para si, nem atribuiu o sucesso à estratégia militar. Ele levantou uma pedra como um memorial físico para que ninguém esquecesse quem os havia livrado.
A Gratidão Cristã ao chegar ao fim de ciclos
A ideia de erguer um “Ebenézer” é extremamente poderosa para o momento de transição entre o ano que termina e o que começa ou até mesmo no fim de ciclos de tempos. Destacam-se três conexões centrais:
- Reconhecimento da Graça Preveniente: A frase “Até aqui nos ajudou o Senhor” reconhece que chegar ao final de mais um ano não é fruto de sorte ou mérito próprio, mas do sustento divino. A gratidão cristã não ignora as lutas — Israel ainda tinha inimigos ao redor —, mas foca na fidelidade de Deus durante as adversidades.
- Combate à Amnésia Espiritual: O ser humano tende a esquecer as bênçãos assim que surgem novos problemas. O “Ebenézer” serve como um freio para esse esquecimento. Ao olhar para o calendário, somos convidados a identificar os marcos de livramento, provisão e paz recebidos.
- Combustível para a Esperança: A gratidão pelo passado é a base da confiança no futuro. O “Até aqui” de Samuel implica continuidade. Se Deus ajudou até este momento, Ele não mudará Sua natureza no dia 1º de janeiro.
Charles Spurgeon, diz:
As palavras “até aqui” são como a mão que aponta em direção ao passado. Seja por vinte ou setenta anos, ainda assim, “até aqui nos ajudou o SENHOR”! Na pobreza, na riqueza, na doença, na saúde, em casa, em outro país, na costa, no mar, na honra, na desonra, na perplexidade, na alegria, nas lutas, no triunfo, na oração, na tentação, “até aqui nos ajudou o SENHOR”! Nós nos deleitamos ao olhar adiante, para uma longa alameda de árvores.
É encantador olhar de ponta a ponta do longo panorama, algo como um templo verdejante, com pilares de ramos e seus arcos de folhas; da mesma forma, olhe para os longos corredores de seus anos, para os verdes galhos de misericórdia sobre sua cabeça e os fortes pilares de bondade e fidelidade que sustentaram nossas alegrias. Não há pássaros cantando nos galhos mais distantes? Certamente deve haver muitos e todos cantam a misericórdia recebida “até aqui”.
Mas as palavras também apontam adiante. Pois quando um homem chega a certo ponto e escreve “até aqui”, ele não está no fim, ainda há uma distância a ser percorrida. Mais provas, mais alegrias, mais tentações, mais triunfos, mais orações, mais respostas, mais labuta, mais força, mais lutas, mais vitórias e, então, vem a doença, a idade avançada, a enfermidade, a morte. Chegou ao fim? Não! Ainda há mais que surge conforme nos aproximamos da similitude a Jesus: tronos, harpas, canções, salmos, vestes brancas, a face de Jesus, a comunidade dos santos, a glória de Deus, a plenitude da eternidade, a infinitude da felicidade. Ó tenha bom ânimo, cristão, e com confiança grata engrandeça seu “Ebenézer” [1]
Práticas para um Ano Novo que Glorifique a Deus
Para que o próximo ano reflita essa gratidão, precisamos de intencionalidade em áreas fundamentais:
1. Cultive sua Vida Espiritual
- Frequência na Comunidade: Não seja um “turista” na igreja. Comprometa-se com as atividades e com o corpo de Cristo.
- Profundidade na Comunhão: O básico do cristão é a oração e a leitura bíblica. Seja intencional: use um plano de leitura, um devocional ou um lecionário. Dedique ao menos alguns minutos diários para meditar nas Escrituras e orar.
- Serviço e Generosidade: Encontre um lugar para servir (louvor, som, kids, suporte). Pouco é melhor do que nada. Além disso, exercite a generosidade sendo um dizimista e ofertante fiel, investindo no Reino de Deus.
2. Estabeleça Objetivos Claros (Profissionais, Psicológicos e Físicos) A falta de planejamento nos faz rodar em circulos. Muitas insatisfações são frutos de nossa negligência, e não de conspirações externas.
- Carreira: Trabalhe duro e busque oportunidades. Atualize seu currículo, use o LinkedIn e coloque seus projetos diante de Deus, mas corra atrás dos resultados.
- Saúde Mental: Vença preconceitos e, se necessário, procure ajuda profissional. Cultive bons hábitos: converse sobre seus medos e pecados com amigos de confiança, aprenda a descansar e respeite seus limites.
- Saúde Física: Cuide do seu corpo como templo do Espírito. Melhore sua alimentação e pratique exercícios. O objetivo não é apenas estética, mas ser uma pessoa funcional, capaz de servir aos outros e desfrutar da vida com disposição.
Lembre-se: As palavras “Até aqui nos ajudou o Senhor” também apontam para o que vem adiante. Escrever “até aqui” significa que ainda há uma distância a ser percorrida. Haverá novas provas e alegrias, lutas e triunfos. E quando chegar o fim de nossa jornada terrena, não será o fim absoluto, mas o encontro com a plenitude da glória, a face de Jesus e a eternidade.
Tenha bom ânimo e erga hoje o seu Ebenézer: Até aqui nos ajudou o Senhor!
[1] Charles Haddon Spurgeon, Dia a Dia com Spurgeon: Manhã e Noite (org. Dayse Fontoura, Thaís Soler, e Lozane Winter; trad. Elisa Tisserant de Castro e Sandra Pina; 2.a edição.; Curitiba: Publicações Pão Diário, 2017), 738.