O Sacerdócio Universal de Todos os Crentes em Lutero

O Sacerdócio Universal de Todos os Crentes

Na Idade Média, consolidou-se a ideia do sacerdócio (o clero) como uma classe distinta dos leigos, dotada de dignidade e direitos especiais. Essa concepção surgiu do entendimento da Eucaristia como um sacrifício — ou mesmo como a repetição do sacrifício de Cristo —, o que tornava indispensável a figura do sacerdote.

Além disso, a noção de que os “sete sacramentos católicos romanos” seriam canais quase exclusivos da graça de Deus, ministrados somente pelo sacerdócio, conferiu aos clérigos enorme poder e autoridade sobre a vida dos fiéis. Assim, os leigos tornaram-se totalmente dependentes da mediação sacerdotal para receber os benefícios da graça e, em última instância, alcançar a própria salvação.

Um exemplo dos malefícios decorrentes desses dogmas pode ser observado na prática do “interdito” ou “interdição”. Tratava-se de um instrumento utilizado pelos papas e outros líderes religiosos contra reis e governantes europeus, por meio do qual o clero era proibido de ministrar os sacramentos em uma cidade, região ou até mesmo em todo um país. Dessa forma, o interdito funcionava como um poderoso mecanismo de pressão político-religiosa.

Martinho Lutero e a Redescoberta da Graça

Em sua peregrinação espiritual, Lutero alcançou uma compreensão da graça de Deus que entrou em choque direto com o entendimento vigente da Igreja e do ministério cristão. A partir de 1512, quando passou a lecionar estudos bíblicos na Universidade de Wittenberg, encontrou nas Escrituras verdades revolucionárias acerca da salvação.

Ele descobriu que a salvação estava fundamentada unicamente na graça de Deus e na obra expiatória de Cristo. Pela fé — isto é, pela confiança nessa graça e nessa obra — o pecador era justificado, ou seja, declarado justo diante de Deus. E até mesmo essa fé não era fruto humano, mas um dom do alto. Assim, as obras ou méritos pessoais não tinham participação nesse processo, pois a salvação era, do início ao fim, uma dádiva da livre graça de Deus ao pecador arrependido.

A partir de 31 de outubro de 1517, Lutero começou a elaborar as implicações mais amplas dessa nova percepção. Ele o fez principalmente em sua obra de 1520, A Liberdade do Cristão, na qual argumenta que a alma crente, ao se comprometer a confiar em Cristo, livra-se de todo pecado, do temor da morte e do inferno, e se reveste da justiça eterna, da vida e da salvação de Cristo. É isso que confere plena liberdade ao cristão.

Lutero diz:

“De posse da primogenitura e de todas as suas honras e dignidade, Cristo divide-a com todos os cristãos para que por meio da fé todos possam ser também reis e sacerdotes com Cristo, tal como diz o apóstolo São Pedro em 1 Pd 2.9: ‘Mas sois vós a geração eleita, o reino sacerdotal, o sacerdócio real’. […] isto é muito mais que ser rei porque o sacerdócio nos torna dignos de aparecer diante de Deus e rogar pelos outros. Porque a ninguém compete ficar diante de Deus e rogar, a não ser aos sacerdotes. Portanto, Cristo nos concedeu a capacidade de interceder e rogar espiritualmente pelos outros, do mesmo modo que um sacerdote intercede e roga corporalmente por seu povo.”

Mais adiante, Lutero pondera:

“Tu perguntas: ‘Que diferença haveria entre os sacerdotes e os leigos na Cristandade, se todos são sacerdotes?’ A resposta é: as palavras ‘sacerdote’, ‘cura’, ‘eclesiástico’ e outras semelhantes foram injustamente retiradas do meio do povo comum, passando a ser usadas por um pequeno número de pessoas denominadas agora ‘clero’. A Sagrada Escritura distingue apenas entre os doutos e os consagrados chamando-os de ministri, servi, oeconomi, isto é, ministros, servos e administradores, que devem pregar aos outros o Cristo, a fé e a liberdade cristã. Já que, embora sejamos todos igualmente sacerdotes, nem todos podem servir, administrar e pregar. Assim disse São Paulo em 1 Cor 4.1: ‘Que os homens nos considerem servidores de Cristo e administradores do Evangelho’.”

Os leigos possuem a mesma dignidade que os ministros, e todas as profissões e atividades são igualmente valiosas aos olhos de Deus. A diferença entre ministros e leigos consiste apenas no fato de que os primeiros foram escolhidos para desempenhar certos deveres específicos, garantindo a ordem na casa de Deus.

Foi esse princípio do sacerdócio de todos os crentes que libertou os fiéis do temor e da dependência do clero. Trata-se do grande princípio religioso que fundamenta todo o movimento da Reforma. Não apenas Lutero, mas todos os demais reformadores o afirmaram, em especial João Calvino.

Lutero sempre pensou que a igreja era parte essencial da mensagem cristã. Sua teologia não era a de uma comunhão direta do indivíduo com Deus, mas sim de uma vida cristã no meio de uma comunidade de fiéis, a qual repetidamente chamou de “igreja mãe”. Embora seja certo que todos os cristãos, pelo simples fato de serem batizados, tornam-se sacerdotes, não quer dizer que cada um de nós deva isolar-se em si mesmo para chegar a Deus. Certamente há uma comunicação direta com o Criador. Porém, há também uma responsabilidade orgânica. O ser sacerdote não quer dizer que o sejamos somente para nós mesmos, mas que o somos também para os demais, e os outros o são para nós.

Em lugar de abolir a necessidade da igreja, a doutrina do sacerdócio universal dos crentes a aumentava. Está claro que não necessitamos já de um sacerdócio hierárquico que seja nosso único meio de chegarmos a Deus. Todavia, necessitamos dessa comunidade de crentes, o corpo de Cristo, dentro da qual cada membro é sacerdote dos demais e nutre a cada um deles. Sem essa relação com o corpo, o membro não pode continuar vivendo.

Lutero, em À Nobreza Cristã da Nação Alemã Acerca da Reforma do Estado Cristão, diz:

“É pura invenção que o papa, os bispos, padres e monges devam ser chamados de ‘classe espiritual’; príncipes, senhores, artesãos e camponeses de ‘classe secular’. Isso é, de fato, uma invenção e um engano muito sutil. Ainda assim, ninguém deve ser intimidado por isso; e por este motivo: na verdade, todos os cristãos são a ‘classe espiritual’, e não há entre eles diferença alguma, a não ser a ocupação que possuem, como Paulo afirma em 1 Coríntios 12.12: somos todos um único corpo, ainda que cada membro tenha seu próprio trabalho, por meio do qual serve os outros. Como consequência, temos um batismo, um evangelho, uma fé e somos cristãos da mesma classe; pois o batismo, o evangelho e a fé, e só eles nos tornam ‘espirituais’ e um povo cristão. Entretanto, que o papa ou um bispo unge, tonsura, ordena, consagra e se veste de modo distinto dos leigos, isso pode gerar hipócritas e ídolos, porém jamais gera um cristão, ou uma pessoa ‘espiritual’. Portanto, por meio do batismo todos somos consagrados como sacerdotes, como Pedro afirma em 1 Pedro 2.9; ‘vós sois geração eleita e sacerdócio real’, e o livro de apocalipse: ‘por meio do teu sangue nos constituístes sacerdotes e reis’ (Ap 5.10). Assim, se não houvesse uma consagração superior concedida pelo papa ou pelos bispos, essa consagração por eles jamais tornaria alguém padre, nem autorizaria alguém a celebrar missa, pregar um sermão ou conceder absolvição. […] Para tornar isso mais claro: se um pequeno grupo de cristãos leigos e piedosos fosse capturado e colocado em um deserto e não tivesse entre eles padre algum consagrado por um bispo, e ali no deserto eles concordassem em escolher um deles, casado ou solteiro e o encarregaram do ofício de batizar, celebrar a missa, absolver e pregar, tal homem seria de fato padre como se todos os bispos e padres o tivessem consagrado. […] Foi dessa maneira, mencionada anteriormente, que os cristãos no passado escolheram entre eles bispos e padres, que eram depois confirmados por outros bispos, sem todas as cerimônias atuais. Foi assim que Santo Agostinho, Ambrósio e Cipriano se tornaram bispos.”

Implicações Práticas

Dessa verdade bíblica, decorrem algumas implicações práticas:

a) O princípio do sacerdócio universal dos crentes nos fala do grande privilégio que temos como filhos de Deus: cada cristão é um sacerdote, tendo livre e direto acesso à presença de Deus, tendo como único mediador o Senhor Jesus Cristo.

b) Todavia, esse princípio jamais deve ser entendido de maneira individualista. A ênfase dos reformadores recai sobre o aspecto comunitário: somos sacerdotes uns dos outros, chamados a orar, interceder e ministrar mutuamente. À luz do Novo Testamento, todo cristão é um ministro (diákonos) de Deus, destacando assim o serviço e a solidariedade entre os irmãos.

c) Num certo sentido, todos os crentes são “leigos”, palavra que vem do termo grego laós, o povo de Deus. Todavia, as Escrituras deixam claro que existem diferentes dons e ministérios. Alguns cristãos são chamados, treinados e comissionados especificamente para o ministério especial de pregação da Palavra e administração dos sacramentos.

d) Os leigos, no sentido daqueles que não são “ministros da Palavra”, também têm importantes esferas de atuação à luz do Novo Testamento. Os líderes da Igreja devem ensinar sobre o ministério do povo de Deus, além de instruir e incentivar os crentes a exercerem seu ministério, tanto pessoal quanto comunitário.

e) O sacerdócio universal dos crentes corre o risco de tornar-se mera teoria em muitas igrejas evangélicas. Sempre que os pastores exercem suas funções com excesso de autoridade (1Pe 5.1-3), insistindo na distância que os separa da comunidade, relutando em descer do pedestal em que se encontram, concentrando todas as atividades de liderança e não delegando responsabilidades às suas ovelhas, tornando a igreja excessivamente dependente de sua orientação e liderança e não oferecendo oportunidades para que as pessoas exerçam os dons e aptidões que o Senhor lhes concedeu, há um retorno ao sacerdotalismo medieval, contra o qual Lutero e os demais reformadores se insurgiram.

Que o Senhor nos conceda a graça de valorizarmos e praticarmos fielmente o princípio bíblico do sacerdócio de todos os crentes, redescoberto pelos reformadores do século XVI. Assim, seguindo a verdade em amor, cresceremos “em tudo naquele que é o cabeça, Cristo, de quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado, pelo auxílio de cada junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor” (Ef 4.15).

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