Caim, Roy McBride e o Homem Moderno

Então Caim disse ao SENHOR:
— Meu castigo é tão grande, que não poderei suportá-lo. Eis que hoje me expulsas da face da terra, e da tua presença terei de me esconder; serei fugitivo e errante pela terra; quem se encontrar comigo me matará” Gn
4.13–14.

“Um lado autodestrutivo, eu sobrevivi, mas eu não sinto nada. Eu me baseio na opinião dos outros, mas é teatro, e eu vivo ansioso para sair de cena, sempre ansioso.” Roy McBride, Ad Astra 2019

Tanto Caim quanto Roy McBride são homens de alto desempenho, símbolos máximos da eficiência em suas respectivas eras. Caim era o agricultor que dominava a terra, o primogênito que domava o solo árduo com força e vigor; Roy é o astronauta de elite com batimentos cardíacos que nunca passam de 80 por minuto, mesmo em situações de quase morte, um monumento vivo ao autocontrole tecnológico. Eles são o modelo exato do que o mundo moderno idolatra e exige: indivíduos hiper-eficientes, cirurgicamente controlados, inabaláveis e bem-sucedidos.

No entanto, a fala dilacerante de Roy desmascara essa fachada de autossuficiência: “Eu me baseio na opinião dos outros, mas é teatro”. Na modernidade líquida e hiperconectada, a nossa identidade foi completamente transferida para as aparências e para a validação externa. Nós trabalhamos, lideramos, postamos e até pregamos baseados no “teatro” da aprovação alheia, performando uma santidade ou um sucesso que não possuímos. Usamos o status profissional, o ativismo político e o engajamento nas redes sociais como a folha de figueira moderna para cobrir a nossa nudez existencial e a nossa vergonha interna. Por fora, o espetáculo da nossa vida pública é aplaudido de pé; por dentro, nos bastidores da alma, há uma ansiedade desesperada e sufocante para “sair de cena”.

Quando Deus confronta Caim pelo seu pecado de fratricídio, a sentença divina não é a morte física imediata, mas algo muito pior e mais doloroso: “Você será um fugitivo errante na terra.” (Gn 4.12)

O castigo de Caim é viver como um nômade existencial, um eterno errante. Ele perde o seu “lugar” no mundo, perde a sua pátria e, acima de tudo, perde a presença reconfortante do Deus que o criou. Ele é condenado a se mover constantemente pelo mundo, mudando de cenário geográfica, espiritual e emocionalmente, sem nunca encontrar um repouso verdadeiro para o seu coração inquieto.

A humanidade moderna sofre exatamente da mesma patologia crônica. Nós somos a geração tecnologicamente mais conectada e geograficamente mais móvel da história humana, e, no entanto, paradoxalmente, somos os indivíduos mais solitários, deprimidos e perdidos que já pisaram na Terra. Nós nos movemos freneticamente de emprego em emprego, de relacionamento em relacionamento, de projeto em projeto, não por um dinamismo saudável ou maduro, mas por pura fuga deliberada. O homem moderno foge de si mesmo porque sabe, no fundo, que se ele parar a correria cotidiana, ele terá que encarar o silêncio ensurdecedor e o vazio aterrorizante de sua própria alma desprovida de Deus.

Em Ad Astra, Roy McBride viaja até os confins mais remotos do sistema solar (Netuno) para encontrar o seu pai desaparecido. O espaço sideral no filme funciona como uma metáfora visual perfeita para o isolamento e o deserto interior do homem contemporâneo: um não-lugar frio, escuro, silencioso, hostil e absolutamente sem vida.

Roy diz em seu monólogo interior: “Um lado autodestrutivo, eu sobrevivi, mas eu não sinto nada.” Essa apatia emocional e o embotamento afetivo são os grandes mecanismos de defesa da modernidade para não enlouquecer. Para sobreviver às decepções amorosas, aos traumas familiares e ao peso insustentável de viver longe de Deus, o ser humano anestesia os próprios sentimentos através do consumo, entretenimento, ou sucesso e realizações. Nós nos tornamos cinicamente pragmáticos, funcionais porém mortos por dentro.

Caim, quando questionado pelo Criador sobre o paradeiro de seu irmão Abel, responde com um desdém congelante e uma frieza assustadora: “Acaso sou eu o guardião do meu irmão?”. O homem moderno, isolado no egocentrismo de sua própria mente e de suas telas, ecoa exatamente a mesma frase todos os dias ao ignorar deliberadamente a dor do próximo para proteger sua própria bolha de conforto e privilégio.

Toda a jornada de Roy no filme é a busca desesperada por um pai biológico que o abandonou na infância e que, eventualmente, enlouqueceu na escuridão do espaço profundo, obcecado por uma missão fracassada. Quando Roy finalmente o encontra na órbita de Netuno, percebe com horror que o pai está cego, obcecado por encontrar alguma forma de vida alienígena inteligente no cosmos, ignorando completamente a beleza da vida humana real que estava bem diante dele.

Essa é a grande e dolorosa tragédia da nossa era secular. Ao matar a ideia de Deus e abraçar a autossuficiência da razão e o materialismo científico, a humanidade moderna ficou completamente órfã de seu criador. Nós nos lançamos freneticamente ao espaço, à inteligência artificial, à tecnologia de ponta, ao consumo desenfreado e à ciência tentando achar um propósito cósmico, uma resposta ou um eco que valide a nossa existência miserável. Mas, assim como o pai de Roy, quanto mais nos afastamos da nossa origem e do nosso Criador, mais loucos, desumanos e obcecados ficamos pelo nada absoluto.

A última cena se desdobra diante de nós: O homem moderno é Caim construindo a cidade de Enoque para tentar se sentir artificialmente seguro no exílio longe do Éden; e é também Roy McBride olhando para a imensidão escura e vazia do universo, percebendo que conquistou as estrelas e a tecnologia mais avançada, mas perdeu a capacidade humana e divina de amar. Ambos ilustram com maestria que a pior maldição desta vida não é o sofrimento físico ou a escassez material, mas a exaustão espiritual de viver uma vida inteira encenando um papel, fugindo de Deus e, no final das contas, errando tragicamente o alvo da nossa criação.

O final da saga de Roy McBride é digna de um bom filme, pois traz a tão necessária redenção. Depois de viver a tragédia de perder definitivamente o seu Pai terreno para a escuridão do espaço, e de quase morrer na viagem de retorno à Terra, ele decide finalmente parar de fugir e escolhe viver de verdade. Toda a sua transformação e o seu retorno à humanidade se resumem na seguinte frase: “Eu vou amar”.

Se você ficou cuirioso sobre o trailer do filme está qui:

E a minha pregação sobre este assunto aqui:

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