CALCULANDO O CUSTO DO DISCIPULADO FAMILIAR

Muito já foi dito sobre o papel do homem no lar, como sua vida deve ser um modelo que inspire sua família a viver para a glória de Deus. Entre tantas responsabilidades, o homem moderno enfrenta o desafio de entender que o discipulado familiar não ocorre no vácuo; ele exige nosso engajamento para que não nos tornemos homens secularizados, mas servos do Deus vivo.[1]

Calculando o custo de ser membro de uma Igreja

Calcular o custo do discipulado familiar exige, primeiramente, reconhecer que a família não é uma ilha. Baucham argumenta que o “pastor do lar” deve submeter seu próprio pastoreio à autoridade da igreja local. O custo aqui é o do orgulho e da autossuficiência. Muitos homens falham no discipulado porque tentam criar seus filhos em um isolamento espiritual, ou pior, consomem a igreja como um serviço e não desfrutam dela como um corpo.

Ser membro de uma igreja bíblica significa que o custo do discipulado familiar inclui a prestação de contas. Significa que você, como pai, entende que seus filhos precisam ver você sendo pastoreado para que eles aprendam a ser pastoreados. O discipulado custa a nossa “liberdade” de estarmos onde queremos; ele nos conecta a uma comunidade de alianças onde o bem-estar espiritual da família é sustentado pela por uma vida em comunidade.

Membresia saudável numa igreja saudável é o fundamento sobre o qual o restante de nossa avaliação de estilo de vida é edificado. Uma igreja saudável nos exporá a ensino, pregação, leitura e canto regulares da Palavra de Deus que moldarão a maneira como pensamos sobre todos os outros aspectos da vida.

Calculando o custo do tempo

Neste ponto, o cálculo se torna matemático e doloroso. Baucham é enfático: não existe discipulado sem presença. O custo aqui é a renúncia ao ativismo e às ambições secundárias. Vivemos em uma era onde o sucesso profissional e o acúmulo de bens são frequentemente usados como justificativa para a ausência paterna. No entanto, o discipulado familiar exige o que a bíblia chama de “remir o tempo”.

Calcular esse custo significa olhar para a agenda e perguntar: “O que eu preciso sacrificar para que o culto doméstico, o domingo na igreja, minha presença de comunhão e discipulado não seja a sobra do meu tempo, mas vital na minha vida?”. O custo pode ser uma promoção que exigiria viagens excessivas, um hobby que consome seus fins de semana ou o simples hábito de chegar em casa e se esconder atrás de uma tela. O tempo é o recurso mais escasso de um homem, e o discipulado exige que entreguemos o “ouro” do nosso tempo aos que amamos, e, em vez de dar a eles apenas as migalhas do nosso cansaço.

Nesse ponto da leitura devo fazer a minha consideração sobre como Baucham enxerga o “domingo do Senhor”[2], para ele é fundamental se abster de certo tipo de lazer ou ociosidade para estar a serviço de Deus (p. 207), essa visão pode correr o risco de nos fazer pensar que aqueles outros dias rotineiros não fazem parte do culto que prestamos a Deus. Mas eu entendo o ponto do autor, pior seria se banalizássemos a vida com Deus dizendo que toda nossa semana é do Senhor e não fazendo nenhum dia dessa mesma semana especialmente Dele.

Portanto o que importa de verdade é compreendermos que devemos gerenciar melhor o nosso tempo, e entregar o ouro para as nossas famílias e para Deus dedicando tempo de qualidade e exclusividade.

Nossa cultura movida a entretenimento tem nos dado laptops, iPods, iPads, iPhones, Wi-Fi, 4G, Netflix e todo um exército de outros dispositivos e mecanismos para manter-nos conectados à “matriz”. Se não estivermos cheios de propósito, a inércia cultural nos impossibilitará de viver vidas significativas. Algum dia prestaremos atenção, e nossos filhos terão partido e tudo que poderemos dizer é: “Eu queria ter usado melhor meu tempo”[3]

O Custo da Lealdade: A Tensão da Dupla Cidadania

Não amem o mundo nem as coisas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele. 16Porque tudo o que há no mundo — os desejos da carne, os desejos dos olhos e a soberba da vida — não procede do Pai, mas procede do mundo. 17Ora, o mundo passa, bem como os seus desejos; mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre (1Jo 2.15–17).[4]

Por fim, Baucham nos lembra que somos cidadãos de dois reinos. O custo do discipulado familiar é o custo da não conformidade com o mundo. Como pais (e maridos), somos responsáveis por ensinar nossos filhos a navegarem na cultura sem serem naufragados por ela. Isso exige uma vigilância constante sobre o que entra em nossas casas e como interpretamos a realidade para nossa família.

Muitas vezes, o custo do discipulado será a impopularidade. O homem que se posiciona contra a maré cultural de seu tempo é, inevitavelmente, visto como uma ameaça aos novos dogmas seculares. Escolher o Reino de Deus em detrimento do “reino dos homens” exige a coragem de dizer “não” aos padrões sociais modernos, seja à ditadura do entretenimento, ao materialismo desenfreado ou às ideologias que tentam desconstruir a masculinidade bíblica.

Nossa referência de masculinidade não é ditada pelo mundo, mas pela figura central de Jesus Cristo, o “homem perfeito” (Ef 4.13), e pelos patriarcas e profetas que andaram com Deus. O apóstolo Paulo nos adverte: “E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso entendimento” (Rm 12.2).

Portanto, o custo da fidelidade é o abandono da necessidade de aprovação social em favor da aprovação divina, entendendo que “a amizade do mundo é inimizade contra Deus” (Tg 4.4).

Assumir o nosso papel como pastores da família é aceitar a condição de estrangeiro e peregrino na terra (1 Pe 2.11). No entanto, essa consciência de “não pertencimento” não nos autoriza a viver como anarquistas ou a rejeitar o tecido social. Pelo contrário, reconhecemos que no “reino dos homens” existem autoridades e regras estabelecidas pela providência divina (Rm 13.1-4).

Contudo, nossa submissão ao Estado e à cultura é relativa, enquanto nossa lealdade a Cristo é absoluta. Quando os ensinos ou imposições do reino humano ferem os princípios inegociáveis do Reino de Deus, devemos reafirmar nossa identidade de embaixadores de Cristo (2 Co 5.20). Nesses momentos de conflito, o custo do discipulado exige que respondamos como os apóstolos diante do Sinédrio: “Mais importa obedecer a Deus do que aos homens” (At 5.29). Como cidadãos do céu, nossa vida pública e familiar deve refletir as leis da nossa pátria superior, mesmo que isso nos torne estranhos aos olhos dos nossos concidadãos terrestres.

Conclusão

Portanto, calcular o custo do discipulado familiar não é sobre encontrar uma maneira de encaixar Deus em nossa rotina, mas sobre edificar nossa rotina sobre a Rocha que é Cristo. É entender que o investimento feito na alma de nossa esposa e de nossos filhos é o único que produzirá dividendos para a eternidade. O preço é alto, exige renúncia, disciplina e morte do “eu”, mas, como Baucham bem pontua, o custo de negligenciar esse chamado é infinitamente maior e mais trágico.

Para o homem que teme ao Senhor, não há alívio no discipulado: ou entregamos tudo, ou não entregamos nada.

Bibliografia

BAUCHAM JR., Voddie. Pastores de famílias: resgatando a ordem bíblica para o lar. Tradução de Francisco Wellington Ferreira. São José dos Campos: Fiel, 2013.


[1] Este estudo se refere a uma serie de encontros com os homens de nossa igreja onde refletimos sobre o livro “Pastores de Família” de V. Baucham Jr.

[2] Baucham e muitos reformadores pensam e concebem o domingo como exclusivo para o dia de culto e atividades para o “Senhor” doutrina endossada nas confissões de Westminster e Confissão Batista de 1689.  

[3] P.214

[4] João Ferreira de Almeida, trad., Nova Almeida Atualizada (Edição Revista e Atualizada®, 3a edição.; Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2017),.

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