Para o cristão, o tempo não é apenas uma sequência de horas, mas um palco para a glória de Deus. Embora o Natal celebre a encarnação — o mistério de Deus se fazendo homem — é na Semana Santa que encontramos a razão de ser da encarnação. Sem a ressurreição, o Natal seria algo extraordinário, Deus tomou forma e pisou neste mundo, mas a morte do salvador faz o domingo da ressurreição ser uma boa notícia definitiva para todos nós.
O Tríduo Pascal: A Anatomia da Redenção
A fé cristã não se sustenta em ideias abstratas, mas em fatos históricos: Jesus ceou, Jesus morreu e Jesus ressuscitou.
A Quinta-feira do Mandamento e do Jantar: Na Quinta-feira Santa, celebramos a instituição da Ceia. Ao participarmos de um jantar de Páscoa, não estamos meramente repetindo um rito antigo, mas nos sentando à mesa com Aquele que é o Cordeiro Pascal. Como diz o teólogo reformado Gerhardus Vos, Cristo é o centro da história da revelação; nele, a Páscoa do Êxodo encontra seu “tipo” e seu cumprimento definitivo.
A Sexta-feira da Paixão: É o dia do “Tenebras”. Nas palavras de João Calvino em suas Institutas: “Nossa condenação foi transferida para a cabeça do Filho de Deus para que fôssemos libertos do julgamento”. A cruz não é um acidente, mas o altar onde o sacrifício perfeito foi oferecido.
O Domingo da Ressurreição: Este é o dia dos dias. O puritano John Owen argumentava que a ressurreição é a prova de que o pagamento de Cristo foi aceito pelo Pai. É por isso que a Páscoa deveria, legitimamente, ter maior peso litúrgico que o Natal: ela é a validação de toda a obra de Cristo.
Muitos cristãos sinceros temem que, ao celebrar um jantar de Páscoa ou observar ritos que remetem ao Antigo Testamento, estejamos “judaizando” a fé ou retornando às “sombras” (Cl 2:16-17). No entanto, esse pensamento carece de profundidade teológica por três razões:
- Continuidade da Aliança: A Bíblia é uma única história. O próprio Jesus disse que não veio revogar a Lei, mas cumpri-la (Mt 5:17). Quando celebramos a Páscoa sob a ótica cristã, não estamos voltando à lei mosaica, mas celebrando o cumprimento da promessa. Não comemos as ervas amargas para sermos salvos, mas para recordar de onde a Graça nos tirou.
- O Erro do Marcionismo Moderno: Rejeitar as raízes judaicas da nossa liturgia é aproximar-se do erro de Marcião (um herético do segundo século que rejeitava o Antigo Testamento). Como afirma o teólogo contemporâneo Herman Bavinck em sua Dogmática Reformada, o Novo Testamento está latente no Antigo, e o Antigo está patente no Novo. Isolar a Páscoa de suas raízes é empobrecer o significado do sangue de Cristo.
- A Liberdade Cristã: Celebrar uma data não é o mesmo que impor uma obra para a salvação. Os reformadores defendiam que as tradições humanas que não contradizem a Palavra e auxiliam a piedade podem e devem ser usadas para a edificação do corpo de Cristo.
A Tradição Reformada e o Calendário Cristão
Ao contrário do que alguns pensam, os grandes reformadores não descartaram o calendário cristão. A Segunda Confissão Helvética (1566), um dos documentos mais importantes do reformismo, afirma explicitamente no Capítulo XXIV:
Embora não esteja a religião limitada pelo tempo, contudo não pode ser cultivada ou praticada sem distribuição e arranjo próprio do tempo. Toda igreja, portanto, escolhe determinado horário para as orações públicas, a pregação do Evangelho e a celebração dos sacramentos, não sendo permitido a ninguém transtornar esse horário da igreja a seu bel prazer. Pois, a não ser que algum tempo livre seja reservado ao exercício da religião, sem dúvida os homens absorvidos pelos seus negócios, estariam afastados dela.
Se as igrejas, em virtude da liberdade cristã, celebram religiosamente a memória do nascimento do Senhor, da sua circuncisão, paixão, ressurreição e ascensão ao céu… nós aprovamos inteiramente.
Os reformados preservaram essas datas porque entendiam que o ser humano precisa de ritmos. Se não preenchermos nosso calendário com a história de Cristo, o mundo o preencherá com a história do consumo e do secularismo.
Considerações finais
Eu sei que nós, evangélicos, temos muita dificuldade com rituais que nos lembram as práticas católicas romanas; enquanto isso, nos vemos mergulhados em práticas neopentecostais que se assemelham a rituais de religiões de matriz africana. Nossa opção por rejeitar certos símbolos enquanto abraçamos outros é fruto de um seletismo desinformado.
Quando tive contato com o Lecionário e o incluí em minha prática de fé — e aqui na igreja como guia para práticas mais teológicas e conectadas com a tradição —, muita gente estranhou, e eu também admito que senti o mesmo. Contudo, com o tempo, percebemos uma beleza escondida: os ritmos do calendário cristão nos ajudam a encarar o tempo presente de maneira sagrada. Isso é, em certo sentido, contracultural, pois resiste à tendência moderna de secularizar o cristianismo e suas práticas.
Minha leitura da Bíblia e minha vida com Deus melhoraram com o tempo. Não preciso ser levado pelo consumismo nem pelos modismos; posso, todos os anos, olhar para as Escrituras — desde a vinda de Cristo até a Sua ressurreição — com apreço e maravilhamento. Você também pode. Talvez isso exija sair ‘da caixa’ da religião evangélica moderna e abraçar a antiga tradição protestante, conectada à extensa história da Igreja.”
O Deus, cujo Filho Jesus Cristo é o bom pastor do teu povo, concede-nos que, ao ouvirmos a sua voz, reconheçamos aquele que nos chama a cada um pelo nome e o sigamos aonde nos conduzir; pois ele vive e reina contigo e com o Espírito Santo, um só Deus, agora e sempre. Amém. †
Notas:
VOS, Gerhardus. Teologia Bíblica: Antigo e Novo Testamentos. Tradução de Alberto Almeida de Oliveira. São Paulo: Cultura Cristã, 2010.
CALVINO, João. As Institutas ou Instituição da Religião Cristã: Edição Clássica. Tradução de Odayr Olivetti. São Paulo: Mundo Cristão, 2024
OWEN, John. A Morte da Morte na Morte de Cristo. Tradução de João Bentes. São José dos Campos: Editora Fiel, 2011
Marcião Dizia que o Antigo Testamento é a palavra de Deus, mas não do Deus supremo, antes do ser inferior, do demiurgo, do deus de justiça! O verdadeiro Deus não é vingativo, antes é todo amor.
Joãozinho Thomaz de Almeida, Introdução aos Estudos da Patrística (vol. 1, 2a ed.; Coleção a Patrística; São Paulo: Fonte Editorial, 2020), 194.
BAVINCK, Herman. Dogmática Reformada
Consulta em Abril de 2026
Lecionário. Thomas Nelson 2025